Sábado, 08 de Outubro de 2011
"O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, 
construída por náufragos.
Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim 
as rajadas de vento do mar.
Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa 
dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida. Pequenas explosões de alho.
O óleo flui nas rodelas do tomate. Cada dentada diz-nos que
o oceano nos quer bem,
um zunido das profundezas.
Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos 
as agrestes colinas floridas,
sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, 
bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas 
coisas juntos, lembramo-nos disso, momentos em que 
de pouco ou nada servíamos (por exemplo, quando esperávamos 
na bicha para doarmos sangue ao saudável gigante –
ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos poderiam ter separado, se não nos tivessem 
unido, e acontecimentos
que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram!
Eles tornaram-se pedras. Pedras claras e escuras. Pedras de 
um mosaico desordenado.
E agora mesmo acontece: os cacos voam todos na mesma direcção, 
o mosaico nasce.
Ele espera por nós. Do cimo da parede, ilumina o quarto de hotel, 
um design, violento e doce,
talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo 
quando tiramos as roupas.
Ao entardecer, saímos.
A poderosa pata azul escura da meia ilha jaz expelida sobre o mar.
Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados, amigavelmente, 
suaves controlos,
todos falam, fervorosos, na língua estranha.
“ Um homem não é uma ilha “
Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de 
nós mesmos. Por meio daquilo que
existe em nós e que o outro não consegue ver. Aquela coisa 
que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula 
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante 
que propaga o silêncio.
Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. 
Um livro que só no escuro se consegue ler."
Tomas Tranströmer
(tradução de Luís Costa)


publicado por Dreamfinder às 09:43
Sexta-feira, 07 de Outubro de 2011
"No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?"
Tomas Tranströmer
(tradução de Luís Costa)


publicado por Dreamfinder às 09:39
Quinta-feira, 06 de Outubro de 2011

 

Num dia em que a morte de Steve Jobs está a marcar as notícias, já foi revelado o novo Prémio Nobel da Literatura: o poeta sueco Tomas Tranströmer. O psicólogo e tradutor, tem 80 anos e a sua poesia é muito influente no seu país de origem. Traduzido em mais de 30 línguas, ficou afásico e hemiplégico na sequência de um AVC em 1990. Este prémio tem um valor ainda mais importante visto que desde 1996 que a poesia não era premiada pela Academia Sueca. Era já um dos grandes favoritos a ser laureado no passado ano, quando foi Mário Vargas Llosa o escolhido. Entre os motivos para esta distinção, a Academia destaca que "através das suas imagens translúcidas e condensadas, o poeta dá-nos um novo sentido à realidade". Entre os poemas do autor encontram-se dois particularmente íntimos do nosso país: "Funchal" e "Lisboa", que publicarei nos próximos dias. Infelizmente, este ano não posso deixar as informações sobre as obras traduzidas para português... porque elas não existem. Esperemos que o Nobel seja o motor para que as editoras portuguesas peguem nas obras do poeta.

 

"Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;
Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nenhuma palavra."


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publicado por Dreamfinder às 12:42
Quinta-feira, 07 de Outubro de 2010

Este ano o contemplado com o Nobel da Literatura é o escritor de dupla nacionalidade peruana e espanhola, Mario Vargas Llosa. A obra do escritor de 74 anos está marcada pelos regimes e cultura opressivos do Perú e busca a liberdade individual do homem. Escreveu várias obras profundamente autobiográficas. E, ainda por cima, um defensor e aficcionado da Festa Brava. Já ganhou diversos prémios, entre os quais o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Cervantes.

 

 

O autor é também jornalista e crítico de arte. A sua vida e obra sempre pautados pela política, levaram-no mesmo a candidatar-se às eleições presidenciais no Perú em 1990, das quais saiu derrotado por Alberto Fujimori. O autor é ainda conhecido, a título pessoal, por uma polémica com o autor Garcia Marquez, com o qual cortou relações há vários anos.

Segundo a Academia Sueca, nomeado "pela sua cartografia de estruturas de poder e as suas imagens mordazes da capacidade de resistência, da revolta e da derrota do indivíduo".

 

A Dom Quixote é a editora que publica em Portugal os livros do autor. Felizmente este é um autor muito publicado no nosso país, pelo que as hipóteses são muitas:

 

 

Conversa n' A Catedral

Considerada por muitos a sua obra-prima, consiste numa conversa entre um jornalista e um amigo seu, marcada pela ditadura peruana e onde é traçado um perfil deste país cruel e sem escrúpulos. A marca pessoal de Vargas Llosa está na crítica social dura aliada ao sarcasmo e à sua irreverência.

 

 

Os Cadernos de Dom Rigoberto

Um livro profundamente marcado pelo erotismo. Dom Rigoberto tem uma vida dupla, de dia é um cavalheiro respeitável e discreto, mas à noite solta as suas fantasias e leva uma vida infame na cama da sua ex-mulher, registando as suas aventuras eróticas nos seus cadernos.

 

 

Travessuras da Menina Má

Uma história de amor em que o protagonista vê todos os seus objectivos postos em causa por um grande amor da adolescência. Um livro sobre o destino, a paixão, a sorte, a dor e o prazer. Um livro, no fundo, sobre o amor em todas as suas facetas.

 

 

 

A Tia Júlia e o Escrevedor

Uma história sobre os escritores e as suas obras, mas também sobre o amor e a importância da diferença de idades.

 

 

O Paraíso na Outra Esquina

Um livro que discute o conceito de felicidade através de duas personagens principais, avó e neto, Flora Tristán e Paul Gauguin. Ela uma defensora dos direitos das mulheres e dos trabalhadores, ele um inspirado pintor que odeia convenções sociais e vê no sexo uma musa inspiradora. Ambos numa busca interior pela felicidade.

 

 

A Festa do Chibo

Um magistral romance sobre a ditadura da República Dominicana, com personagens que movem os leitores e os prendem à narrativa.

 

 

Pantaleão e as Visitadoras

Uma das obras mais divertidas do autor, conta-nos a história de um oficial do exército muito competente e dedicado, Pantaleão Pantoja, que é encarregue de uma missão muito particular: deve organizar em total segredo, um eficiente serviço de prostitutas para os oficiais das Forças Armadas do Perú erradicados em plena Amazónia.



publicado por Dreamfinder às 20:10
Sexta-feira, 09 de Outubro de 2009

 

É Herta Müller que sucede a Le Clèzio no Prémio Nobel da Literatura deste ano. A autora é de origem alemã e nasceu em 1953. O prémio foi atribuído devido à "densidade da sua poesia e franqueza da prosa" que retratam o "universo dos desapossados". Mais uma vez, a academia sueca ignorou os favoritos para este prémio, como Amós Oz, Philip Roth ou Joyce Carol Oates e surpreendeu com o anúncio da vencedora. É a 12ª mulher a levar o Nobel para casa.

Escreveu diversos livros sobre as condições da vida na Roménia comunista.

Para os interessados, que acompanham os prémios Nobel, a autora tem duas obras publicadas em português que estão descontinuadas. Porém, e após este prémio, espera-se que voltem muito em breve novas edições às livrarias. As obras são:

 

- "O homem é um grande faisão sobre a terra", editora Cotovia (1993)

É um relato perturbador sobre a comunidade alemã totalmente desintegrada numa Roménia comunista e opressiva. Descreve o seu duro quotidiano, os seus sonhos e aspirações, os conflitos e as superstições.

 

- "A terra das ameixas verdes", editora Difel (1999)

É uma obra sofrida sobre as muitas existências em perigo durante a ditadura de Ceausescu. Revela a profunda desumanidade do regime e a sobrevivência no medo e através do silêncio.

 

Boas leituras "nóbeis"!


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publicado por Dreamfinder às 21:41
“Um leitor é sempre um estudante do mundo.” Deborah Smith
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